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Pietr Ilyitch Tchaikovsky nasceu a 7 de maio de 1840, em Votkinsk – hoje pertencente à República Autônoma de Udmurtes, Rússia – às margens do Volga. Pelo lado paterno era um russo de quatro costados: seu bisavô lutou contra os suecos, sob o comando de Pedro, o Grande. Seu avô fez brilhante carreira na administração do czar, tornando-se chefe de polícia de Slobodsk, pequeno burgo na Província de Viatka.

Seu pai, o engenheiro Ilya Petrovitch Tchaikovsky, dirigia desde 1837 uma usina siderúrgica do governo, que extraia ferro da região e fabricava locomotivas, vagões e navios a vapor. Testemunhas da época o descrevem como um homem robusto e destemido, mas brando, extremamente sentimental, afetivo, sonhador. Quando jovem, tocava flauta e era um apaixonado pela literatura. Aos trinta e dois anos, casou-se com Maria Karlovna Keiser, que lhe deu uma filha, Zinaida, e morreu dois anos e meio depois do casamento.

Em 1833, casou-se com Alexandra Andreivna d’Assier, que emigrara para a Rússia depois da promulgação do Edital de Nantes. Jovem de origem francesa, era muito bonita, majestosa, de olhos fascinantes e mãos extremamente bem desenhadas. Mais tarde, o compositor diria: ‘Jamais vi mãos comparáveis às de minha mãe’. O casal teve seis filhos: Nicolau, Pedro (Pietr), o compositor, Alexandra, Hipólito e os gêmeos Anatólio e Modesto. Este último escreveu uma biografia do irmão, em três volumes, publicadas entre 1900 e 1902.

Da infância do compositor, sabe-se que bem cedo revelou dotes musicais, mas não recebeu educação sistemática nesse sentido; os pais achavam que isso era pouco saudável para uma criança por demais sensível e até mesmo neurótica. Sua governanta, a jovem suíço-francesa Fanny Durbach, que o educou dos quatro aos oito anos, sintetizou sua personalidade dizendo que ele era ‘uma criança de vidro’: extremamente frágil, por qualquer motivo caía em pranto. Aos sete anos, compôs uma pequeno poema em francês, sobre Joana d’Arc, no qual se evidencia a importância do elemento feminino em sua vida. Sabe-se também que se identificou profundamente com a figura da mãe. Sua morte, quando ele tinha quatorze anos, abalou-o seriamente.

Em 1848, o pai mudou-se para Moscou, onde o compositor sentiu-se muito mal, por não poder viver em condições tão boas como em Votkinsk e por ser tratado como um grosseiro camponês. Consolava-se, no entanto, com as lições de piano que passou a ter com Filipov, um verdadeiro músico; em pouco mais de um ano, seu progresso foi enorme.

Dois anos depois (1850), a família mudou-se para Alapaiev, perto de Nijni-Novgorod (atual Górki), onde o pai do compositor foi dirigir uma usina siderúrgica. Nesse mesmo ano, decidiu-se, em conselho da família, que Tchaikovsky deveria tornar-se advogado. Para tanto, faria os exames de ingresso nas classes preparatórias – correspondente ao atual secundário – da Escola de Direito de São Petersburgo. Aprovado brilhantemente, os anos seguintes seriam dedicados parte à preparação para a futura carreira de advogado, parte à música.

Desse período da adolescência destacam-se três acontecimentos que o marcaram para o resto da vida. O primeiro levou ao paroxismo o sentimento de culpa que já se manifestara anteriormente. Irrompida uma epidemia de escarlatina na classe que freqüentava, um amigo da família que exercia o papel de tutor de Tchaikovsky, Modesto Alexeievitch Vakar, levou-o para sua própria casa, em vez de deixá-lo em quarentena na escola. Um dos filhos de Vakar, de cinco anos apenas, contraiu a moléstia e faleceu. Tchaikovsky considerou-se culpado pela morte do menino e jamais cessou de se auto-acusar, declarando que desejava morrer. Inúteis foram os esforços da família e do próprio Vakar: Tchaikovsky nunca se perdoou.

O segundo acontecimento foi uma experiência feliz e muito gratificante. Curiosamente, Vakar foi personagem importante também neste caso. Afeiçoando-se ainda mais o jovem Tchaikovsky e querendo atenuar o seu sentimento de culpa, Vakar – passado o período de luto – levou-o ao teatro de ópera para assistir ao ‘Don Giovanni’, de Mozart. O espetáculo o impressionou muito; foi uma verdadeira revelação: ‘A música de Don Giovanni é a primeira que me transtornou. Ela fez nascer em mim um êxtase (…). Transmitiu-me a chave das esferas da beleza pura, onde planam os maiores gênios. (…) Devo à Don Giovanni o ter-me consagrado inteiramente à música’.

O terceiro fato marcante da adolescência de Tchaikovsky, foi a morte da mãe, pela qual nutria verdadeira paixão. Um estudo psicanalítico mostraria como o culto da figura materna provocou no compositor uma tal idealização do feminino que ele passou a se recusar a ver em qualquer mulher uma amante física. Nisso residiriam as raízes da homossexualidade que constituiu o núcleo de sua personalidade.

No mais, a adolescência do compositor transcorreu entre a rígida disciplina da Escola de Direito e estudos de piano com um novo professor, Kundiger, sob cuja influência pensou em escrever uma ópera-bufa, ‘Hipérbole’ – projeto nunca realizado. Kundiger escreveria mais tarde: ‘(…) em momento algum surgiu-me a idéia de que Tchaikovsky pudesse ter o estofo de um músico (…). Sem dúvida, ele era dotado, tinha muito bom ouvido, memória, mãos excelentes, mas, ao lado disso, nada, absolutamente nada que anunciasse um compositor ou mesmo um instrumentista de qualidade (…). Nada de marcante, nada de fenomenal…’.

Em 1859, Tchaikovsky concluiu os estudos jurídicos e passou a trabalhar no Ministério da Justiça. Um ano antes, seu pai perdera toda a fortuna, enganado por uma aventureira. Obrigado a ganhar o próprio sustento, o compositor teve de submeter-se às tarefas rotineiras de um burocrata. Péssimo funcionário, constantemente advertido pelos chefes, sentia-se um pária desprezado por todos, o que, provavelmente, era agravado pelas dúvidas com relação à natureza de sua sexualidade.

Para esquecer e superar esses sentimentos negativos, refugiava-se nos prazeres dos restaurantes, dos teatros, dos salões mundanos. Dançava elegantemente, improvisava ao piano sobre árias da moda, entusiasmando as moças. Por diversas vezes, julgava ter encontrado a mulher de seus sonhos e fazia poéticas declarações de amor; as eleitas não o levavam a sério, como se ele fosse apenas um menino. No teatro, apreciava sobretudo a ópera italiana e os espetáculos de bailado, cuja técnica ficou conhecendo profundamente; anos depois, tornar-se-ia um dos mestres do gênero.

Em 1861, viajou pela Alemanha, Bélgica e França e, em setembro do ano seguinte, ingressou no recém fundado Conservatório de São Petersburgo – primeira escola de música oficial da Rússia. Aí, sob a direção de Anton Rubinstein, seguiu os cursos de composição – ministrados por Zaremba -, piano e flauta, além de adquirir noções de órgão. Meses depois, tomou uma decisão fundamental para seu futuro: optando de uma vez por todas pela carreira de músico, abandonou o Ministério da Justiça, muito embora isso significasse uma vida de pobreza e privações. Particularmente importante para chegar a essa decisão foi a influência do amigo Hermann Laroche, que conheceu no conservatório e que, anos depois, se tornaria crítico musical.

A partir de então, o compositor passou a viver de raras lições que podia dar, de magros cachês acompanhando cantores medíocres e de alguns trocados pela tarefa de copiar partituras, o que o obrigava a trabalhar até alta madrugada. Mas, como isso não bastava para suas necessidades, era obrigado a recorrer aos amigos e aos agiotas. Nesses anos de dificuldades financeiras, Tchaikovsky compôs algumas poucas obras, entre as quais merecem menção uma abertura para o drama A tempestade, de Ostrovsky, e a Ode a alegria, sobre texto de Schiller traduzido por Aksakov. Esta última foi executada em 31 de dezembro de 1865, como peça de conclusão de curso. Embora saudada com entusiasmo pelo amigo Laroche (‘Você é o mais bem dotado dentre todos os músicos russos contemporâneos’), Cesar Cui e muitos outros criticaram-na severamente.

A miséria material juntava-se, assim, a absoluta falta de estima por sua música. Frustrado e abatido, só encontrava momentos gratificantes junto à irmã Kamenka, perto de Kiev. Desde a morte da mãe, Tchaikovsky transferira todo seu sentimento filial para a irmã. Sempre que possível, viajava para Kamenka, onde encontrava a calma e a serenidade que julgava necessárias para compor: ‘(…) a condição absoluta de toda criação artística é a faculdade de se desligar totalmente das preocupações da vida do homem e viver exclusivamente do artista’.

Outros tempos, no entanto, estavam para iniciar em sua vida. O Conservatório de São Petersburgo abarrotara-se de alunos, o que levou Anton Rubinstein a fundar uma outra escola de música em Moscou. Nikolai Rubinstein, irmão de Anton, foi encarregado de organizá-la, e uma de suas primeiras providências foi convidar alguns dos recém formados para preencher o quadro de professores. Entre eles, Tchaikovsky.

Em Moscou, já no início de 1866, o compositor foi morar na casa de Nikolai Rubinstein, que o introduziu na melhor sociedade e o pôs em ligação estreita com personagens importantes para seu futuro: o musicólogo Kachkin, o editor Jurgenson, os escritores Ostrovsky, Pissemsky, Plestcheiev e Sologub. Em março do mesmo ano, uma composição sua era, pela primeira vez, bem recebida:

‘Na sexta-feira, Rubinstein dirigiu uma abertura composta por mim. Foi um grande sucesso. Fui chamado ao palco e – segundo a fórmula consagrada – recebido por uma tempestade de aplausos’. Não se tratava de uma obra de grande valor, mas o fato de Tchaikovsky ter sido tão festejado serviu para lhe dar ânimo por algum tempo e impedir o desespero total.

Pouco tempo depois, começou a compor a Sinfonia n.º 1, tarefa que trouxe de volta toda a sua angústia: ‘Tenho os nervos completamente em frangalhos. Minha sinfonia não progride. (…) Vou morrer logo, bem o sei, antes mesmo de acabar minha sinfonia. (…) Odeio a humanidade e desejo me retirar para um deserto’. O trabalho quase levou-o à loucura, depois de noites e noites em claro, alucinações, complicações intestinais, enxaqueca, todos os sintomas de neurastenia aguda.

Seu médico afirmou que ele estava ‘a um passo da demência’ e proibiu-lhe de escrever uma só nota. Nos primeiros dias de 1867, seu estado ainda inspirava cuidados, mas Tchaikovsky, já concluída a Sinfonia n.º 1, passou a compor a ópera Voievode, sob influência do grupo de compositores nacionalistas de São Petersburgo, principalmente Balakirev. Levada à cena no Teatro de Moscou, a ópera não obteve sucesso algum e o compositor, em estado de grande excitação nervosa, destruiu o manuscrito.

O ano seguinte (1868) foi marcado por seus primeiros contatos com o grupo dos Cinco e pela mal sucedida ligação amorosa com a cantora francesa Désirée Artot. As relações com o grupo dos Cinco originaram-se de um indignado protesto que Tchaikovsky enviou à revista ‘Entreato’, por ter esta publicado uma crítica infamante a Rimski-Korsakov, por ocasião da estréia de sua ‘Fantasia Sérvia’.

Tchaikovsky admirava profundamente a música de seu aluno Rimsky-Korsakov, um dos Cinco, e seu violento protesto sensibilizou os outros membros do grupo, que o convidaram a visitá-los em São Petersburgo. Esse fato, no entanto, não fez dele um novo membro do grupo. Tchaikovsky não admirava especialmente a música dos Cinco, salvo a de Rimsky-Korsakov. Os outros quatro, por outro lado, o consideravam demasiado ocidental. Uma maneira derivada de sua admiração por compositores como Mozart, Beethoven, Weber, Schumann e Meyerbeer. A essa acusação de ‘falso russo’ , no entanto, ele responderia irado, em carta ao irmão Modesto: ‘Eu sou russo, russo, russo até a medula dos ossos’.

Em boa medida devido a inegável influência ocidental – à qual se somou com os anos de sua aproximação de Massenet, Saint-Saëns, e de dois compositores que o deslumbraram, Bizet, com sua Carmen, e Wagner, com O Anel dos Nibelungos – Tchaikovsky sempre foi considerado arquiinimigo do nacionalista grupo dos Cinco. E, se é verdade que estava em desacordo com os princípios autodidatas e empiristas do grupo, a atitude de Tchaikovsky nunca foi hostil, salvo no caso de Mussorgsky, que se desprezavam mutuamente.

As relações com Désirée Artot iniciaram-se em outubro de 1868, quando ela esteve em Moscou como membro de um grupo italiano. Aluna de Pauline Viardot, possuidora de voz volumosa e grande talento dramático, Désirée era capaz de interpretar quase todos os papéis da ópera italiana para soprano lírico, soprano dramático e meio-soprano. O compositor entusiasmou-se com ela: ‘Que cantora, que atriz! (…) Raras vezes vi uma mulher tão amável, boa e inteligente (…)’. Nas férias, passearam juntos por diversas cidades, e, em novembro do mesmo ano, de volta à Moscou, o compositor resolveu desposá-la. Mas Désirée não o levou a sério e, um mês depois, casava-se na Polônia com um barítono espanhol. Mais uma vez sua tentativa de firmar-se como homem fracassava.

Os anos seguintes da carreira de Tchaikovsky foram arcados pelo crescente sucesso como compositor e como regente, entremeado por diversas crises em sua vida íntima. Datam desse período suas mais conhecidas obras: a Fantasia-Abertura Romeu e Julieta (1869), a canção Apenas um coração solitário (1869), o Quarteto para cordas n.º 1 (1871), o Concerto para piano n.º 1 (1874), o balé O lago dos cisnes (1876), o Concerto para violino (1878), o Capricho italiano (1879), a Abertura ‘1812’ (1880).

Como regente de suas próprias composições, diversas viagens ao estrangeiro trouxeram-lhe a glória internacional. Entre suas turnês, destaca-se a que realizou durante seis meses (1891-1892) pelos Estados Unidos, onde a sua música gozaria de muito prestígio e seria aplaudida entusiasticamente pelo grande público. Tanto foi o sucesso que, em 5 de maio de 1891, Tchaikovsky inaugurou a que se tornaria uma das salas de concertos mais importantes do mundo: o Carnegie Hall de Nova Iorque. Outra turnê triunfal foi a de 1893, pela Alemanha, Suíça, França, Bélgica e Inglaterra; É a época das honras: o czar lhe outorgou uma pensão de 3.000 rublos anuais e, na universidade de Cambridge, recebeu o título de doutor honoris causa , juntamente com Grieg, Saint-Säens, Bruch e Arrigo Boito.

No plano pessoal, o último terço da vida do compositor foi dominado por um desastroso casamento – que não chegou a se consumar – e pela estranha ligação que manteve com Nadejda von Meck, sua protetora. Em 1877, durante um período de febril atividade em que compôs a Sinfonia n.º 4 e a ópera Eugênio Oneguin, Tchaikovsky conheceu Antonina Ivanovna Miliukova, sua aluna, moça de vinte e oito anos, porte médio, loura, olhos azuis e sorriso sensual.

De inteligência abaixo da média, era, porém, megalomaníaca; de origem social humilde, afirmava não ser filha de seus pais, mas de um grande senhor. Ninfomaníaca, apaixonava-se por qualquer homem que encontrasse, sobretudo quando rico ou célebre. Não se sabe exatamente como os dois se conheceram, mas, logo depois, Antonina enviava ao compositor uma carta apaixonada: ‘Meu primeiro beijo será para você e para nenhum outro. Não posso viver sem você’. Dezenas de cartas como essa ela já tinha enviado a banqueiros, artistas, generais, até mesmo a membros da família imperial. Preocupado com os mexericos sobre a sua vida sexual, Tchaikovsky, ao que tudo indica, quis dar aos outros e a si mesmo uma prova de que era viril, e casou-se com ela no dia 30 de julho de 1877. Três dias depois, escrevia a seu irmão Anatólio: ‘Fisicamente, ela me inspira repugnância total’.

As semanas seguintes foram de intenso sofrimento para o compositor, culminando com uma tentativa de suicídio. Entre 29 de setembro e 5 de outubro (a data exata é desconhecida), entrou nas águas do rio Moscou, ali permanecendo até que o frio se tornou uma tortura; pretendia contrair uma pneumonia que o matasse. Isso não aconteceu, mas foi acometido de violenta crise depressiva, perdeu a consciência e ficou dois dias em coma. O médico que o atendeu exigiu que mudasse imediatamente de casa e transformasse seu modo de vida.

A ligação com Nadejda von Meck começou em 1876, quando ela tinha 45 anos de idade. Aos dezessete casara-se com Karl Georg-Otto von Meck, proprietário e construtor das duas primeiras ferrovias russas. Von Meck a deixara viúva, com doze filhos e uma imensa fortuna, que ela, excelente mulher de negócios, soubera administrar. Impressionada com a música de Tchaikovsky (‘…graças a vossa música, a vida torna-se mais doce e digna de ser vivida’), desejou ajudá-lo.

Para tanto, aproximou-se de Nikolai Rubinstein, que lhe pintou com cores vivas a pobreza material do compositor. Nadejda respondeu-lhe: ‘Nikolai Grigorievitch, não precisa advogar sua causa com tanta eloqüência: sua música já o fez antes e muito melhor’. A partir desse momento, Nadejda von Meck tornou-se protetora do compositor, fornecendo-lhe uma pensão de 6.000 rublos anuais, que lhe permitia viver sem problemas materiais.

A única condição estabelecida foi que os dois jamais deveriam se encontrar, comunicando-se somente por cartas. E em uma destas, Tchaikovsky pinta seu auto-retrato, no que se refere ao amor: “Você me pergunta se eu conheci outro amor que não o amor platônico. Sim e não. Se a questão me tivesse sido colocada de outra forma: ’Você experimentou a felicidade de um amor completo?’, minha resposta seria: não, não e não! Mas pergunte-me se sou capaz de compreender a força imensa do amor, e eu lhe direi: sim, sim e sim!”.

E de fato, como haviam combinado, os dois jamais se encontraram, a não ser em apenas três ocasiões, quando puderam ver-se, mas de longe. Essa estranha ligação envolveu também aspectos emocionais. O afeto de Nadejda transformou-se em amor apaixonado, mas silencioso. Por outro lado, o compositor via nela, um anjo protetor, uma substituta da mãe.

A relação durou muitos anos, até outubro de 1890, só terminando devido a intrigas engendradas pelo violinista Pakhulski, um dos membros do círculo de Nadejda. Auxiliado por outros, Pakhulski acabou convencendo-a de que Tchaikovsky era apenas um aproveitador. O rompimento deu-se a 17 de outubro de 1890, com uma carta seca de Nadejda, na qual simplesmente avisava o compositor que, ameaçada pela tuberculose e passando por momentos difíceis, não poderia mais enviar-lhe a pensão; nas entrelinhas, deixava claro que a ruptura era total e definitiva.

O compositor ficou profundamente abalado pela decisão da protetora, mas não por seus aspectos materiais; na época, Tchaikovsky estava no auge da fama e ganhava muito dinheiro, de tal forma que podia sustentar seu irmão Modesto e vários jovens músicos sem fortuna. O que chocou foi o significado afetivo da ruptura. Em carta ao editor Jurgenson, o compositor expressou a sua decepção: ‘(…) meu amor-próprio foi violentamente ferido. Descubro que, na realidade, tudo não passou de um negócio de dinheiro que termina da maneira mais banal e estúpida (…)’. Se isso não bastasse, Tchaikovsky acrescenta: ‘(…) Toda minha fé nos semelhantes, toda minha confiança no mundo ficaram reduzidas a nada. Perdi minha tranqüilidade, e a felicidade que talvez o destino ainda me reservasse ficou envenenada para sempre’.

Profundamente chocado, Tchaikovsky refugiou-se na música e nas viagens, mas outro golpe o esperava. A 18 de abril de 1891, embarcando no porto do Havre para a turnê pelos Estados Unidos, recebeu a notícia da morte da irmã Alexandra. A viagem pelo Novo Mundo, apesar da entusiástica acolhida, é marcada pela angústia da ausência daquela que era sua segunda mãe e confidente.

Na volta (1892), compõe e balé O quebra-nozes e Iolanda, sua última ópera. No ano seguinte, compõe a Sinfonia n.º 6 – Patética. Interpretada pela primeira vez em São Petersburgo, a obra é recebida friamente, inclusive pelos músicos. O compositor, no entanto, tinha outra opinião. Escrevendo ao sobrinho Bob Davidov, ao qual se ligara muito intimamente, afirmou: ‘(…) considero esta sinfonia a melhor de todas as obras que escrevi. Em todo caso, é a mais sincera. Eu a amo como jamais amei qualquer de minhas partituras’.

A 3 de novembro de 1893, alguns dias após a primeira audição da Patética, o compositor, bebendo água não fervida, foi contaminado pela epidemia de cólera que grassava em São Petersburgo. Alguns biógrafos interpretam o fato como uma verdadeira tentativa de suicídio, pois nada custava tomar os cuidados necessários contra a possibilidade de contrair a moléstia. Seja como for, sua saúde piorou rapidamente. No dia seguinte, Tchaikovsky mostrou ter plena consciência de seu estado: ‘Creio que é a morte; adeus, Modesto’. A 6 de novembro, por volta das 3 horas da madrugada, exalou o último suspiro.

Modesto Tchaikovsky, irmão do compositor e seu primeiro biógrafo, foi um dos poucos familiares e amigos que testemunharam seus últimos momentos: ‘De repente, seus olhos abriram-se completamente. Uma consciência lúcida, alucinante, brilhava em seu olhar, que nos fitou, um de cada vez, depois dirigiu-se para o céu. No espaço de alguns poucos instantes, um clarão dançou no fundo de suas pupilas e se apagou com o último suspiro. Era pouco mais de 3 horas da manhã…’

Criticado por muitos contemporâneos que achavam sua arte demasiado ocidental, Tchaikovsky se defendeu escrevendo: ‘No que se refere ao caráter geralmente russo de toda minha música, de suas relações com o folclore no terreno da melodia e da harmonia, saiba simplesmente que, desde a mais tenra infância, eu me impregnei da miraculosa beleza dos cantos populares; de tal forma amo apaixonadamente cada manifestação da alma russa que sou um russo cem por cento’.

Tchaikovsky nunca admitiu a música como ‘um jogo de sons sem propósito’. Suas obras são, como ele mesmo as definiu, ‘a confissão musical da alma’. A preocupação com a verdade, a simplicidade e a sinceridade da expressão estão unidas ao tema fundamental de sua música, que é a luta – e o fracasso – do homem para dominar seu destino. Homem sensível, de doentia timidez, sufocado pelo sentimento de culpa e por manias de perseguição, e provavelmente sofrendo de distúrbios sexuais, Tchaikovsky foi essencialmente um solitário, que sempre morou com a irmã em algumas das propriedades de Nadezhda von Meck, mecenas que o manteve mas nunca conheceu. As escassas tentativas de aproximação do sexo oposto terminaram em estrepitosos fracassos.

Se a sua vida particular foi um mistério, não o foi menos sua morte. Durante muito tempo teve-se a versão oficial por cólera, mas pesquisas posteriores revelaram que muito provavelmente foi ‘condenado’ ao suicídio. Seja qual for a verdade, Tchaikovsky deixou uma obra que se tornaria uma das mais populares na música clássica.

Tchaikovsky esteve em contato com os inovadores da música russa, o Grupo dos Cinco. Foi influenciado por suas idéias mas opôs-se ao seu nacionalismo exacerbado, preferindo assimilar influências ocidentais. Seu ídolo é Mozart. Temperamento instável, emotivo, Tchaikovsky criou obra desigual, eclética, que refletiu a sua personalidade. A Sinfonia n.º 1 – Sonhos de inverno (1866) foi prosseguida de uma crise nervosa e alucinações, das quais fora periodicamente vítima. Seu primeiro sucesso internacional foi a abertura-fantasia Romeu e Julieta.

A maior parte de sua obra é instrumental. As obras pianísticas e camerísticas são, com exceções, música leve, de salão. Mas o Quarteto para cordas em ré maior (1872) é justamente famoso pela melancolia do movimento lento – que arrancou lágrimas de Leon Tolstói. Em 1876 escreveu o poema sinfônico Francesca da Remini e o seu primeiro balé O lago dos cisnes que teve sucesso ruidoso e, até hoje, permanente. A Abertura 1812 (1878) é música emocionante e divertida, da mesma forma como a Sinfonia n.º 4 em fá menor (1878).

O Concerto para piano n.º 1 em si bemol menor Op. 23 (1875) é o mais famoso de seus concertos. O Concerto para violino em ré maior Op. 35 (1878) é cativante pela melodias engenhosas e o ritmo vivaz. Na Serenata para cordas (1888) e nas Suíte n.º 3 (1884) e n.º 4 (1888) sente-se, sobretudo, a influência de Mozart. Inspirado pela morte de Rubinstein

, que lhe favorecera o lançamento das obras, Tchaikovsky compôs em Roma o Trio para piano em lá menor (1882), que é uma obra séria.

Entre as melhores obras de Tchaikovsky encontram-se as suas óperas. Eugênio Oneguin (1877), tirado da obra homônima de Puchkin, recria a atmosfera dos grandes romances russos do século XIX. A música, de uma nobre melancolia, reúne elementos russos, italianos e franceses. Destaca-se ainda a ópera A dama de espadas (1890), muito representada ainda hoje na Rússia.

Em Frolovskoye escreveu a Sinfonia n.º 5 em mi menor (1888). Suas sinfonias são poéticas e bem trabalhadas. O desespero dos intelectuais russos de 1870-1890 é refletido na mais popular dessas sinfonias, sua última produção, a Sinfonia n.º 6 em si menor – Patética (1893). É o apogeu de seu sentimentalismo melancólico. Seu último trabalho para o palco foi o balé Quebra-nozes, um dos seus maiores sucessos.

A música de Tchaikovsky tem gozado de grande popularidade, sendo considerada expressão autêntica da alma russa por ingleses e americanos e também na Alemanha. A França é menos entusiástica, preferindo Borodin e Mussorgsky. Na Rússia continua Tchaikovsky sendo considerado como o grande compositor nacional, talvez por ser acessível às massas. Foi também muito elogiado por Stravinsky

Músicas mais conhecidas de Tchaikovsky:

  • Valsa das flores (da música de cena O quebra-nozes) – Somente o tema principal desta música é conhecido
  • Cisne ao luar (da música de cena O lago dos cisnes)
  • Valsa (da música de cena A bela adormecida)
  • Abertura 1812 – Somente o tema principal desta música é conhecido
  • 1.º movimento (Concerto para piano n.º 1)
  • Dança russa (da música de cena O quebra-nozes)

Fonte: http://www.classicos.hpg.ig.com.br/index2.htm

Publicado 23/11/2010 por 1234rrrss em Música

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